sábado, 26 de janeiro de 2019

Ainda sobre a dissimulada taxa de estadia....

Este assunto dá pano para mangas. O tópico que fizemos sobre o mesmo foi longo, mas havia que apresentar alguns argumentos pertinentes contra a mesma, alguns já amplamente debatidos, outros nem tanto. Há sempre a necessidade de se ir ao fundo da questão.
E a questão da legalidade?
Houve uma tentativa de taxa em Lisboa, a da proteção civil, que foi "chumbada" pelo Tribunal Constitucional, de modo que houve até devoluções de verbas já cobradas aos contribuintes.

E esta taxa turística (estadia)? Poderá seguir o mesmo caminho? Há já queixas no ar!
Como não somos juristas nem temos qualquer pretensão a sê-lo, nem queremos enveredar para a asneira e para a boçalidade, vamos socorrer-nos de um brilhante artigo já com dez meses mas sempre muito pertinente e útil de Vital Moreira, figura acima de toda a suspeita, quando se trata de assuntos que podem ferir a letra e o espírito da Constituição.
Para quem nunca leu, fica aqui a ligação à web do dinheiro vivo.pt

https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/opiniao-nem-taxa-nem-turistica

Para que os nossos autarcas e respetivos séquitos possam refletir em consciência!!


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Flyzoo Hotel - China - uma nova experiência

Para quem não sabe, o grupo Alibaba é o gigante chinês e mundial do comércio eletrónico.
Muito bem, o investimento hoteleiro mais moderno do gigantesco grupo é o hotel FlyZoo, na cidade de Hangzhou, num total de 290 quartos.
O que é que isto de especial?
Aparentemente, nada, mas se dissermos que esta unidade é a incubadora de uma nova experiência de robotização e inteligência artificial direcionada para unidades hoteleiras, do grupo e não só, as coisas mudam de figurino.
A finalidade é a de se saber a reação dos hóspedes a este modelo de hotelaria, com cada vez menor intervenção humana, num mercado onde o consumidor assume rapidamente toda e qualquer inovação tecnológica. Sabe-se que no Japão este tipo de experiência deu resultados "nim". Uns a favor, outros contra. Na China e noutros locais poderá ser diferente.
Gostaria de receber toalhas limpas e "cocktails" de um robot em forma de aspirador ?

Veja esta reportagem fantástica da Reuters (só os primeiros minutos do video abaixo)
https://www.reuters.tv/v/PXa2/2019/01/23/alibaba-s-new-hotel-runs-on-robot-hospitality

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Uma Rosa e muitos espinhos ou a taxa do nosso descontentamento


Muito já se falou sobre a introdução de uma taxa turística no Algarve, sabe-se há muito que foi em sede de reunião da associação de municípios do Algarve que a decisão foi tomada mas não foi unânime pois desde o início o município de Silves não apoiou nem gostou da decisão, fazendo logo constar que não pensa sequer em introduzi-la no seu próprio concelho. Pode-se dizer, claro, que o facto da Câmara Municipal de Silves ser liderada por um partido político (neste caso coligação) que é uma exceção à regra, uma vez que no Algarve todos os outros concelhos são liderados pelo PS e pelo PSD, estaria a tentar fazer política “politiqueira” à conta desta questão, mas também se pode dizer que o concelho de Silves está a tentar reabilitar um pouco a sua imagem através da não aplicação da taxa, recuperando assim Armação de Pera como um importante destino, além de chamar a atenção para o interior do concelho, zona também com potencial para se afirmar como destino de investimentos. Como tal, a taxa turística não seria uma boa ideia. Parabéns a Silves, ditos por quem nem sequer é apoiante dessa coligação ou de outros partidos.

Independentemente dessa dissonância entre essa cidade e o resto da região, é preciso dizer que a taxa turística só foi pensada por cá não pelo facto de ela já existir nalguns países, mas apenas (mais uma vez isto é o típico português) só porque Lisboa e, posteriormente, o Porto a introduziram. Simples assim. Não é que o valor pensado para a mesma, de € 1,00 (valor mínimo) por dormida a cobrar durante apenas um certo número de noites da estadia (pelo menos 5 a 7 noites, talvez de março a outubro), seja algo caro ou inibidor para os turistas. A questão aqui nada tem a ver com o preço, com o valor da taxa por assim dizer.

A problemática surge devido ao sinal que estamos a passar para fora, leia-se para os turistas individuais, para os operadores, enfim, para os envolvidos no chamado “trade” turístico.
Basta fazer uma pesquisa na internet para chegarmos à conclusão que, por exemplo, muitos dos turistas britânicos que visitam destinos um pouco por toda a Europa não gostam da ideia da taxa turística, causando até uma certa confusão a maneira como ela é paga. Este exemplo não é o único, claro, há mais exemplos de pessoas que estranham, pois já pagam muitas “alcavalas” só pelo simples ato de viajar. Sabemos muito bem que a taxa turística foi uma criação de cidades e regiões que necessitavam claramente de sinalizar que muitos dos seus residentes estavam “fartos” de turistas e tinham até razões para isso. Os grandes exemplos são mesmo Paris, Barcelona, Amesterdão e a massacrada Veneza, só para citar os mais emblemáticos. Obviamente que estas e outras cidades com dinâmicas económicas que não passam só pelo turismo, como sucede na maioria das capitais europeias, também poderão introduzir essa taxa (ou já o fizeram), até para demostrar aos próprios residentes que as autoridades estão atentas e que não desejam que a sua cidade se torne uma espécie de Disneylândia. Nestes casos, ainda que a muito custo, poder-se-á entender a aplicação deste tributo. Ainda assim, as taxas não resolveram nenhum problema relacionado com o “overcrowding”, o que já de si diz bem da utilidade das mesmas…

Só que a grande questão para nós é outra, completamente à margem. O que é que nós no Algarve temos a ver com o que atrás foi dito? Porque é que nós temos que ser eternamente uma espécie de “Maria-vai-com-as-outras”? Podemos nós, porventura, nos compararmos a grandes cidades que têm diferentes fatores de atratividade económica e social e, como tal, vivem bem sem turistas e não necessitam claramente desses possíveis exageros? Seremos nós no Algarve uma espécie de arquipélago ecologicamente sensível, em perigo, que deve evitar e restringir o turismo? A esse propósito, ainda recentemente observámos como os municípios apoiaram os contestatários à exploração do petróleo no Algarve, contestação essa que se aceita perfeitamente por poder, potencialmente, colocar em causa o atual “status quo” económico e social da região ou de uma parte da mesma. Assim sendo, que sentido faz declarar “amor ao turismo” para depois se tomar uma medida que sinaliza exatamente o contrário?

A grande utilidade da taxa turística não é, ao contrário do que se diz, a da obtenção de verbas para ajudar a sustentabilidade ambiental do local A ou B. Ou para compensar custos acrescidos por via do aumento do movimento de pessoas. Nem sequer para grandes eventos culturais dedicados à época balnear. Veja-se o que Lisboa fez. Investiu em obras de um monumento nacional, algo que não lhe cabia, pois tal deveria ficar a cargo da administração central. Desviou verbas para o palácio nacional da Ajuda, só para dar um pequeno exemplo. Para não falar do financiamento da Web Summit. A grande verdade é que este tipo de atitude já vinha de fora. Na sequência das crises financeiras, que como todos recordamos, ocorreram na Europa, muitos municípios aproveitaram para introduzir a taxa turística, a qual serviu para cobrir défices excessivos como, por exemplo, sucedeu na Croácia. Por conta da introdução da mesma em Dubrovnik (eis um destino “massacrado”), outras localidades aproveitaram a boleia e fizeram o mesmo. Infelizmente, os exemplos de fora são claros: a taxa nunca serviu para melhorar a experiência do turista ao visitar determinada cidade ou região, mas sim para ajudar a fechar o “gap” das contas públicas.

É, pois, claro como a água: sem taxa turística em Lisboa, não teria a mesma sido introduzida no Porto e não teria sequer sido assunto ou tema de discussão no Algarve.

Ainda que se pudesse aceitar a taxa como apenas “mais uma” de muitas, teríamos sempre de discutir o problema nuclear e que é o seguinte: não devemos nunca, mas nunca, no Algarve dar esse péssimo sinal de que achamos que temos “turismo a mais”. É um erro, sim, logo agora que outros destinos de sol e praia estão a recuperar e bem. Isto significa que o Algarve terá seguramente grandes dificuldades em crescer como tem ocorrido nos últimos anos, situação que já se verificou em 2018 (aguardamos os números finais, mas já há quedas importantes no turismo britânico, só para dar um exemplo) e que se poderá evidenciar em 2019. Agora, os grandes operadores turísticos (e não só) estão claramente a tentar desviar os turistas de Portugal e Espanha para destinos mais baratos, mais concorrenciais na relação qualidade/preço, situação visível pelo regresso à ribalta dos destinos Tunísia, Egito ou Turquia (este é realmente barato para os europeus), isto para não falar da Grécia, da Croácia e muitos outros exemplos dentro e fora da Europa. Numa hora de incertezas e maior instabilidade global será legítimo começar a cobrar uma nova taxa exatamente numa altura em que poderemos ter dificuldades em crescer ou mesmo não crescer? O Algarve, em 2018, como dissemos, já não terá crescido por aí além em número de visitantes. Em alguns casos as receitas e os lucros de muitas unidades hoteleiras já terão até diminuído. Não parece, pois, nada prudente introduzir esse tipo de tributo. Se os autarcas soubessem como é enervante para os turistas o pagamento, por exemplo, de portagens como as da A22, certamente pensariam melhor sobre tudo isto.

Ainda por cima, apesar de, teoricamente, ser o turista a pagar a taxa, o que se verifica na realidade é algo diferente. Na prática, será sempre o empresário que a sustenta porque nenhum proprietário de estabelecimentos de dormidas vai deixar que a mesma inflacione os preços no atual ambiente de elevada concorrência, sobretudo os de pequenos estabelecimentos “low cost” (para não falar da burocracia, pois o empresário é que cobra, mas o município é que beneficia). Se a dormida for de €49,00 por noite, a mesma passará a ser de €48,00 para que o preço final não passe dos mesmos quarenta nove euros originais. Em todo o caso, ainda que seja mesmo o turista a pagar e caso ele tenha uma estadia de 5 noites, serão sempre mais cinco euros (pelo menos, pode ser mais) a sair da esfera dos privados a favor do Estado. Há que não esquecer que os municípios também são Estado. Numa época em que a política oficial do Governo e da maioria que o sustenta é a progressiva (ainda que lenta) devolução de rendimentos às pessoas (e também às empresas), fará sentido extrair dos privados mais uns milhões de euros por ano? É uma contradição! Neste Algarve tão sazonal quaisquer verbas retiradas das mãos dos empreendedores podem ser prejudiciais ao andamento e desenvolvimento dos respetivos negócios.

Por outro lado, este tributo levará inevitavelmente a diversas injustiças, sendo importante dar alguns exemplos para reflexão.

Desde logo, o nome é bem enganador. Isto não é uma taxa turística, mas sim uma taxa de estadia, começando logo por ser uma grande injustiça (Veneza é que tem uma verdadeira taxa turística pois é cobrada pelo ato de visitar a zona histórica). Porque é que os fornecedores de alojamento é que têm de cobrar estas verbas quando a presença de turistas beneficia todo o tipo de negócios de uma região como a nossa? Os turistas não se alojam e desaparecem. Eles usaram transportes para cá chegarem, na maioria das vezes dois ou três meios de transporte. Também vão a restaurantes e/ou outros estabelecimentos congéneres. Muitos também consomem diversas experiências um pouco por todo o lado. Isto significa que a taxa é escusada pois os turistas já estão a pagar impostos bem pesados através do seu consumo de bens e serviços. Além do mais, quando um Hotel paga a conta da água está a pagar aos municípios toda a sorte de serviços inerentes à referida conta, a qual não existiria se não fossem esses hóspedes. Por outro lado, temos a questão da definição legal de turista. Sendo apenas as estadias até 30 dias consideradas “turísticas”, só estas é que vão pagar (até x dias de estadia) a dita taxa. Um “turista” que passe uma temporada, digamos, 90 dias através de um serviço de aluguer de média duração já não será considerado turista para este efeito, apesar de, legalmente, o ser. E se for daqueles cidadãos do Espaço Schengen que ficam o tempo que querem, ainda mais gritante se torna. Ao mesmo tempo, quem vai cobrar esta malfadada taxa aos milhares de autocaravanistas que se encontram no Algarve todos os anos, com destaque para a atual época do frio? É que estes cidadãos representam milhares de noites de estadia incobráveis, já que não passam nenhuma noite em alojamentos legalizados. Ou seja, turistas de baixo valor acrescentado para o destino Algarve são beneficiados pela própria natureza das circunstâncias. Injusto. Também há que ver a questão do cidadão residente alojado em unidades hoteleiras. Confuso? Não. Basta pensarmos nas milhares de dormidas anuais de funcionários públicos ou trabalhadores privados de fora da região que vêm ao Algarve a trabalho ou por outro motivo não turístico. Além do Algarvio de Aljezur ou de Alcoutim que vai dormir uma noite num alojamento em Faro devido a uma consulta matinal de especialidade no hospital local. Injusto. Finalmente, para não alongar muito os exemplos, que dizer da fórmula de cobrança? Só vai recolher e entregar a taxa o empresário honesto e cumpridor que paga tudo só por respirar. Os eternos prevaricadores que já fogem de outros impostos e taxas (de certeza que ainda existem) também vão conseguir fugir deste tributo. Duplamente injusto. Em suma, é uma taxa de estadia, não é paga por todos e acaba por ser paga também por quem não deveria ter de fazê-lo. Ao mesmo tempo, faz muita confusão pensar que concelhos como Monchique, Alcoutim ou S. Brás, só para citar alguns, alinham nisto. A sério? Têm estes concelhos tantas dormidas ao ponto de querer afastar as pessoas? Concelhos existem nesta região que têm visitantes só em passeio, situação que não corresponde a nenhuma dormida. Cruel.

Por outro lado, há que desmontar a tese de que se trata só de “mais um euro ou dois”, algo que não impacta as contas de ninguém. Isso é como começa… mas não sabemos como acaba. Lisboa é o primeiro exemplo. Ainda agora introduziu a taxa mas já está a aumentar o seu valor. O mesmo ocorre um pouco por todo o lado. Tempos houve em que Amesterdão só cobrava uns míseros euros por dia. Hoje, nos bairros do centro velho da cidade a taxa já subiu para 7% do valor total da dormida. Sim, leu bem, não há engano. Quem quiser pagar bem menos, vá dormir para alojamentos da periferia. E assim, não se sabe como estas coisas acabam. Na Nova Zelândia foram ao absurdo: introduziram a taxa para todos, exceto para os vizinhos Australianos, os quais são dos principais emissores de turistas. Estranho? É o que acontece quando se abre a caixa de pandora.

Como se toda esta argumentação não bastasse, vale a pena refletir tal como fizeram “think tanks” da Malásia, que criticaram abertamente a taxa mesmo sabendo que se trata de um país pobre cujo Estado necessita de receitas. Dado que a taxa está a ser “vendida” como algo que vai “compensar” os efeitos da pressão turística, ela nada mais é do que mais uma “taxa do pecado”. Para quem não conhece, este conceito até é antigo, tendo surgido a propósito dos impostos especiais sobre o tabaco, as bebidas alcoólicas, sobre produtos derivados de petróleo, sobre itens açucarados, para não falar de outros tributos ambientais, etc… a filosofia é a mesma. Quem peca mais, paga mais. Neste caso, o “pecaminoso” é o turista que tem de pagar por consumir as nossas infraestruturas, os nossos recursos, tal como o fumador paga mais por, garantidamente, exaurir mais recursos dos serviços públicos de Saúde. Ora, como já vimos, se esse argumento ainda poderá ter alguma validade (duvidosa) em certos centros urbanos do mundo, nada disso se pode aplicar ao Algarve. Nem no mais delirante pensamento. Se não forem os turistas a “consumir os nossos recursos e infraestruturas”, a quem é que eles se destinam? A meia-dúzia de idosos (somos uma população envelhecida) e uma dúzia de funcionários do Estado? Poderá haver melhor exemplo do que aquilo que se passa no mês de Janeiro? Um Algarve semi-moribundo, parado, desesperado à espera de turistas. Uma população desocupada ou num esquema de emigração de curto prazo. O que seria hoje o Algarve sem esses “gastadores dos nossos recursos e infraestruturas”? Os antigos diziam e bem: nunca mordas a mão que te dá de comer!

Poderíamos ir mais além, mas não é necessário, pois outros já apresentaram diferentes argumentos. Por isto e muito mais, no nosso caso regional, há que dizer com todas as letras: não à taxa de estadia mascarada de taxa turística no Algarve!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Um sucesso em continuidade, mas já aparecem nuvens negras

(Regressamos após longa ausência, pela qual nos desculpamos)


Antes de mais uma das muitas projeções para o turismo em 2019, vale a pena rever a continuação do sucesso mundial do turismo em 2018 – em praticamente todo o lado se excederam as expetativas, embora haja exceções, as quais deverão passar por mercados como o dos EUA, mas isso vamos guardar para outras núpcias. Lá para Março poderemos ter uma melhor ideia sobre os números finais. Do que se depreende, pelos três primeiros trimestres de 2018, tivemos em quase todo o lado um aumento de receitas gerais, embora com segmentos mais lucrativos do que outros. Ainda assim, nada de conclusões precipitadas.

Existe algo que se pode facilmente afirmar, tendo em conta os números dos últimos anos. Após os altos e baixos verificados entre 2008 e 2014 (que ainda assim não impediram um crescimento global do mercado de viagens e turismo), ocorreu um enorme “boom” entre Março de 2015 e Setembro de 2017. Voltamos a esclarecer que esta é uma contagem global, pelo que fenómenos localizados de crise (tipo Turquia) por esta ou por aquela razão não são tidos em conta. A maioria das regiões turísticas ibéricas, beneficiando dessas crises localizadas (mais uma vez) até participou fortemente no crescimento desses dois anos e meio de ouro. Há que acrescentar que ao se falar em “boom” naquele período, não quer dizer que antes ou depois do mesmo se fale em crise. Nem de perto nem de longe. Pode-se falar do regresso a um crescimento mais de acordo com a média histórica. Aquele não foi um período normal. Aliás, esses períodos são sempre excecionais, embora a sua extensão temporal leve a crer que as coisas vão ficar assim para todo o sempre. A velha frase “desta vez é diferente” não deixa de induzir em erro os menos experientes. Os períodos de euforia são raros, mas historicamente persistentes e, infelizmente, acabam. O que é bom sempre acaba. A boa notícia é: nem sempre o fim de um “boom” significa crise ou recessão. Pode levar a um período de maiores dificuldades e desafios que serve até para a correção dos excessos do período anterior. Mas isso não é necessariamente sinal de fim de festa. É, na maioria das vezes, um período de ressaca da própria festa. Naquele período, com crescimentos nalguns casos superiores a 10% ao ano (em relação ao período homólogo anterior), a festa foi grossa. Permitiu que muitos projetos saíssem do papel, permitiu a reposição da liquidez para muitos agentes com dificuldades de acesso fácil ao capital, permitiu, sobretudo, algo muito mais importante, a recuperação da confiança (tantas vezes) perdida.

Um sucesso em continuidade, com muita satisfação para dar e vender.

A nível mundial, quer em 2017 quer em 2018, viajaram pelo menos uma vez ao ano para um país estrangeiro mais de mil e trezentos milhões de seres humanos, em qualquer dos anos um aumento de 6% ou mais, em relação ao ano anterior. Ainda há pouco tempo, o mercado comemorava o número mágico de mil milhões. Provavelmente teremos, antes de 2030, cerca de dois milhões de pessoas a viajar em férias para países estrangeiros. A maioria desse crescimento impressionante está a ser, e deverá assim continuar, oriundo da região Ásia-Pacífico. Tal não significa que o resto do mundo esteja em estagnação. Trata-se apenas de diferenças normais entre aquela e as restantes zonas. Normais devido à óbvia divergência entre a velocidade dos respetivos ritmos de crescimento económico. Nenhuma previsão deve acertar em cheio, sobretudo devido a fatores imponderáveis, mas, à luz do que sabemos agora, devemos levar esta previsão em boa conta.
Isto não significa, porém, que os ditos imponderáveis não tenham o seu peso numa análise fria do mercado de viagens e turismo. Este mercado sempre foi afetado negativamente por fenómenos surpreendentes. Que o digam destinos como a Tunísia, Egito ou Turquia, só para citar os mais falados. Ironicamente, o retorno dos turistas aos mencionados destinos está a ser uma realidade, sendo já um fator de preocupação para os ibéricos.

É por isso que este sucesso estrondoso em destinos como Portugal, poderá ser ensombrado por algumas nuvens negras que estão no horizonte.

Desde logo, facto incontornável, a diminuição do crescimento das economias do mundo ocidental. Não quer dizer que as restantes não apresentem igualmente problemas, mas falo destas por se tratarem dos países emissores de turistas para Portugal na sua larga maioria (mais de 95%). Isso deverá implicar um travão no crescimento a que nos habituámos ou mesmo uma certa estagnação. O atual quadro de incertezas na União Europeia (nervosismo social) com destaque para a situação do Reino Unido (Brexit) poderá ser uma “pedra no sapato” para os destinos Algarve e Madeira. No caso do Algarve, poderá obrigar a uma contração (ou estagnação) de preços dos voos, dos extras e até do alojamento. Poderá afetar mesmo as vendas de alimentação e bebidas e de outro tipos de experiências. Vendo bem, num quadro de crise, mesmo quem viaja para o estrangeiro acaba por poupar mais dinheiro do que num quadro de normalidade. No caso dos voos “low cost” não se prevê qualquer tipo de inflação uma vez que o preço do petróleo está a níveis bem favoráveis. Isso é bom. Mas o que é bom para nós também o é para a concorrência. O “low cost” alimentado por combustível barato leva a que seja possível agora viajar em conta para destinos fora da Europa, precisamente com origem em mercados que nos interessam, como o britânico, o alemão ou mesmo o nórdico. O petróleo barato é, ironicamente, mau para o nosso destino, pois permite o surgimento do “super low-cost”. Voos baratos destinados a locais geograficamente mais distantes do centro da Europa. Eis uma realidade a que nos teremos de adaptar, uma das tais nuvens negras.
Além disso, há um retorno evidente a destinos que, recentemente, estiveram em crise, sendo que alguns deles estão a nos ultrapassar em termos de relação qualidade / preço. Se é verdade que a questão da segurança sempre terá muito peso no segmento Sol e Praia, também é verdade que a política de preços não lhe fica nada a dever. A acrescentar a este retorno a destinos que estiveram “out” durante algum tempo, temos novos destinos a entrarem em concorrência direta. Isso deverá ser prejudicial aos destinos mais “maduros”, como o nosso. Finalmente, um fenómeno muito desprezado, mas que não deixa de ser uma realidade tão esquecida: os destinos muito procurados, beneficiários do referido “boom” também têm momentos de “cansaço”. O que significa isto?
O cansaço advém da psicologia (normal) do viajante / turista. Após viagens consecutivas ou interpoladas ao mesmo destino, a tendência é a de procurar conhecer outros destinos. Há até uma faixa significativa de turistas que jamais repete um destino ou que só regressa a um destino com maior frequência após se aposentar. Neste caso, porém, estamos a falar dos clientes habituais ou semi-habituais de um destino. Até estes turistas têm a tendência de, por vezes, sem nunca abandonarem a intenção de voltar ao seu destino predileto, procurarem novas experiências, quer em destinos semelhantes, quer noutros totalmente diferentes. Estas pessoas voltarão sempre a “casa”, muitas vezes à mesma cidade, aos mesmos restaurantes e alojamentos, mas a tendência atual é a de, aqui e ali, procurarem conhecer outras coisas. Em resumo, fidelidade sim, mas não a 100% como ocorre com algumas pessoas. É mais uma forma de se entender o conceito do cansaço de um destino.
Por outro lado, a busca por novas experiências deve ser motivo de reflexão. O mundo das “viagens já viajadas” tem destas ironias. O consumidor procura avidamente experiências. Isso já todos sabemos. A questão é o esquecimento das consequências diretas: quando um destino de “sol e praia” tem poucas opções de experiências marcantes, a tendência é a busca por um destino semelhante que ofereça mais e melhores experiências. E quando falamos em experiências, há a tendência para a asneira: muitos procuram oferecer algo de mirabolante quando o correto seria, nesse campo, o “back to basics” com qualidade e autenticidade.

As nuvens negras já causam mesmo alguns arrepios. Os investimentos de AL, sobretudo em Lisboa e no litoral algarvio, já começam a não se pagar a eles próprios. Vários proprietários tentam mesmo regressar ao arrendamento clássico. Algumas unidades hoteleiras devem fechar o ano sem crescimento de lucros, situação oposta à de anos anteriores.
Acreditamos no sucesso e no crescimento, mas não se deve negar os sinais e as evidências. Os próximos tempos serão tempos de desafios e mais dificuldades. Na verdade nunca houve facilidades. O que houve foi um crescimento tão acelerado e rápido que levou a uma certa ilusão e euforia...

domingo, 31 de dezembro de 2017

O mundo do turismo em grande para 2018

Saudando todos os leitores nesta época festiva e para comemorar mais um ano de sucesso no turismo mundial, esperando que o crescimento se mantenha com muita força, fica um enorme bem haja a todos.

Há um ano atrás, para celebrar o novo ano, tínhamos uma imagem linda com os "slogans" de promoção turística de todos os países que têm esse tipo de mote.
Este ano fica outro gráfico, cortesia tnooz.com/mozio, mostrando quão complexo é o mundo dos viajantes na hora de programar uma viagem. Confuso? Vamos falar muito disto por aqui...
O nosso blogue esteve um tanto ou quanto parado, mas virão boas novidades em 2018. Fique ligado.