sexta-feira, 26 de maio de 2017

Alojamento Local - corrigir um erro por linhas tortas

Já passaram cerca de seis meses desde a publicação do tópico “Alojamento Local – negócio ou outra coisa qualquer?”, o qual pode ser facilmente encontrado no arquivo. É bom revê-lo para melhor entendermos este novo tópico.

Na época, insurgimo-nos contra a lentidão do legislador a reagir às realidades socioeconómicas. Também sobre o facto de a atualização das condições do AL ter sido muito “Lisboa-dependente”. Afinal, problemas que surgiram na capital, já o eram há muito noutras terras onde o turismo já era uma atividade preponderante nas respetivas economias. Na altura, o Tribunal da Relação de Lisboa anunciou um Acórdão que deu razão a uma Assembleia de Condóminos que queria impedir um dos proprietários do prédio em causa de abrir o seu estabelecimento de alojamento local. Na verdade, a decisão estava tomada em outra instância, mas o proprietário avançou com uma providência cautelar para parar essa proibição, situação que foi derrubada pelo Tribunal da Relação. Desconfiávamos que o assunto iria parar ao Supremo Tribunal de Justiça. Assim foi. Este último acabou por dar razão ao proprietário, contrariando a Relação de Lisboa. Apesar de incrédulos pelo facto do Tribunal superior ter aceite a argumentação de que, ainda que a propriedade seja usada para um negócio, não deixa de ser uma habitação, não sendo assim considerado imóvel comercial (!), não ficámos surpreendidos pela decisão.

Apesar de não termos formação superior em Direito, continuamos a pensar que um imóvel habitacional, terá de ser considerado “também” comercial, pelo que facto de nele se desenvolver uma atividade que, do ponto de vista da fiscalidade, é exatamente igual a um hotel ou a um parque de campismo, etc… mas, reafirmamos, a situação não nos surpreende por uma simples razão: o STJ entendeu não forçar jurisprudência em relação a uma situação que havia sido alvo de mudanças recentes por parte de quem tem autoridade para legislar. Sendo assim, havia na letra de Lei uma alteração recente que “per si” justificava esta decisão. Queremos com isto dizer que a nova legislação que regula o chamado Alojamento Local deixou cair uma premissa antiga na qual se exigia que um estabelecimento do género, se localizado num imóvel em propriedade horizontal, só poderia ser registado como tal com autorização do condomínio, sendo necessário apresentar mesmo uma cópia da ata da assembleia geral do mesmo, onde a decisão favorável tenha sido tomada. Sem isso, não era possível dar-se início ao processo de registo e legalização. Ou seja, a nova lei deixou cair este parágrafo, ficando subentendido que o proprietário podia fazer o que quisesse, sem pedir nada a ninguém. A partir daí, os vizinhos (enfurecidos) de proprietários de estabelecimentos de AL tentaram, por falta de alternativa, recorrer aos tribunais, alegando que o código civil ainda impedia a transformação, sem autorização, de imóveis habitacionais em imóveis comerciais, alegando que esses imóveis subordinados ao AL eram “de facto”, ainda que não “de jure”, imóveis comerciais.
Acreditamos que é uma boa alegação, as razões já as explicámos nesse velho tópico. Mas a grande questão continua a ser a falta de bom senso do legislador. Deixar cair a dita exigência sem mexer na restante legislação é, no mínimo, bizarro. Bizarro porque leva a interpretações dúbias, situação que fica bem à vista pelas sentenças divergentes das diversas instâncias judiciais.

Tudo o que foi referido nas linhas anteriores seria mais do que suficiente para recuperar a anterior premissa: voltar a necessidade de autorização do condomínio. Essa iniciativa veio agora de alguns deputados do PS, alegando que é necessário disciplinar esta atividade económica em condomínios, leia-se, propriedade horizontal. As restantes bancadas Parlamentares acolheram a ideia como positiva e prometem fazer propostas para melhorar as mudanças. Claro que, no meio de toda esta situação, há sempre um “mas”. O que parece ser uma singela intenção de moralizar uma questão potencialmente geradora de conflitos, só surge por motivos políticos. Como a população “votante” começa a manifestar o seu desagrado pela falta de habitação na cidade de Lisboa (gentrification), o que é ainda mais sensível, tratando-se de ano de eleições municipais, os políticos decidiram pela mudança da lei. Uma atitude certa, portanto, mas pelos motivos errados. O que eles pretendem é “estancar” os pedidos de autorização para novas AL em apartamentos. Assim, sem autorização do condomínio, resta ao senhorio o arrendamento urbano normal, o qual não carece desse tipo de autorização. Nesse caso, voltaria a haver oferta de espaços para arrendar, mesmo sabendo que os preços seriam elevados. Na verdade, os senhorios não ficam a perder: atendendo aos preços praticados no arrendamento urbano, a hipótese de ganhar dinheiro é muito grande. Na verdade, podem auferir mais do que através do Alojamento Local, devido ao aumento exponencial da concorrência neste setor. Do ponto de vista da fiscalidade, as coisas começam a ser mais favoráveis para quem arrenda do que para quem “faz turismo”. Por outro lado, aqueles que trabalhavam na clandestinidade através das plataformas de reserva, estão agora perdidos. As reservas confirmadas ficam no sistema das mesmas, as quais informam agora anualmente a AT quem são os contribuintes e respetivos proveitos. O tempo dos “espertos” está a acabar.

Falta ainda entender como o legislador vai resolver um problema: se o dono do apartamento necessitar mesmo de pedir autorização ao condomínio, o que fazer em relação aos que continuam hoje, até ver, a se licenciar como AL? Fica assim? Vai haver prédios onde uns conseguiram e outros já não vão conseguir a mesma coisa? Vai haver um período de transição para aqueles que já estão licenciados? Vai haver, seguramente, muito barulho em torno desta questão.


A nossa mensagem é clara: já que pretendem “mexer” na legislação do AL, aproveitem para reunir as associações do setor turístico, de modo a corrigir não só essa questão, mas também quaisquer outras que possam causar engulhos. Precisamos de ter tranquilidade legislativa em toda a Hotelaria. Precisamos de uma ou duas décadas de estabilidade a este nível, até porque sem isso, não é fácil atrair mais e melhores investimentos nacionais e estrangeiros. Mais do que nunca, atendendo à importância crescente do Turismo, é preciso estabilidade e bom senso.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Urgente: novas unidades hoteleiras algarvias podem não abrir como previsto

Como a escassez de habitação está a ser um problema para o próprio Turismo

Não, hoje não vamos falar da bronca recente no Aeroporto de Lisboa, apenas uma de muitas que ocorrerão, infelizmente, à medida que a capacidade se for esgotando até rebentar pelas costuras.

Hoje vamos falar de uma consequência óbvia, já esperada, do atual “boom” do turismo. Mais uma vez há que levantar o assunto porque, ao que parece, ninguém se está a preocupar com as consequências do dito… para o próprio setor do turismo. Todos sabem como temos avisado para o crescimento do setor de viagens e turismo. Ainda é cedo, mas estamos quase a rever em alta as previsões do crescimento em Portugal para 2017. Deixamos apenas um exemplo, segundo a Blick alemã. Há mais germânicos a reservar em Portugal (25% a mais do que no ano passado), número impressionante, só ultrapassado pela Islândia e Chipre. Sabe-se também que a Grécia deve subir (total estrangeiros) uns 10%, pelo que Portugal poderá também atingir números semelhantes.
Em Portugal, o primeiro quadrimestre foi um sucesso e alguns lugares parecem viver um verão “todo o ano”, tal o aumento de turistas, sobretudo estrangeiros. Considerando que temos agora a França a ultrapassar o Reino Unido em termos de gastos totais, considerando que os chamados “mercados maduros” estão em alta, bem como os mercados menos relevantes, há razões para acreditar que voltaremos a bater recordes atrás de recordes.

Tudo isto tem várias implicações: maior volume de negócios, desde logo dos supermercados que têm de atender às necessidades diárias dos turistas de alojamento “self-catering”, aos estabelecimentos da área de F&B, alguns dos quais estão com aumentos de faturação muito significativos, empresas de transporte e rent-a-car e, claro, entre muitos outros, de toda a sorte de alojamentos turísticos, classificados ou não. Este acréscimo de movimento é positivo, diminuindo a sazonalidade e aumentando o rendimento de empresários e funcionários. Para não falar que, por óbvia necessidade, existem mais funcionários. Atendendo a esta realidade, atendendo também à saída, nos últimos anos, de muitos profissionais de hotelaria do país, graças a ofertas monetariamente mais vantajosas e mais seguras do ponto de vista laboral (sem falar do espírito de aventura e da experiência nova para quem quer melhorar o CV), temos uma enorme escassez de mão-de-obra em praticamente todas as áreas da hotelaria e similares. Ainda que essa escassez produza melhorias salariais, o problema não se resolve de uma forma simples. Melhores salários não são sinónimo de aumento de mão-de-obra disponível numa determinada região, pelo que é necessário recorrer a recursos humanos do exterior, nomeadamente de outros pontos do país. Este problema é grave em Lisboa e gravíssimo no Algarve. Aqui, há uma imensa falta de profissionais de F&B (muito grave) e de “housekeeping”. Este problema não é inteiramente novo, mas conhece agora novos contornos. Era muito comum ofertas de emprego com possibilidade de alojamento, sobretudo para atender à procura da temporada alta (nalguns casos até 6 meses de contrato). O problema novo prende-se com a falta de alojamento “em conta” para o trabalhador comum.

Na realidade, devido à soma de fatores bem conhecidos, o mercado imobiliário está novamente ao rubro. É praticamente impossível comprar um imóvel por um preço acessível, o mercado das vendas está inundado, isso sim, por imóveis bem caros para “outros públicos”, onde se incluem aposentados da EU ou candidatos ao chamado “gold visa”. Como se isso não bastasse, o arrendamento a preços razoáveis é quase impossível devido à adesão em massa ao negócio do Alojamento local, agora mais facilitado por plataformas como booking.com, airbnb, entre muitas outras. Cabe esclarecer que somos favoráveis ao AL, até porque isto representa diversas formas de alojamento com muita procura, nem todas “low cost”, mas consideradas importantes para responder ao aumento da procura, ao mesmo tempo que “liberta” os Hotéis com melhores infraestruturas para tipos de público mais “sofisticados”, sobretudo tratando-se de unidades com uma preocupação séria em recuperar o espírito social do espaço e a oferta de serviços e “amenities”.
A grande questão é a seguinte: considerando que muitos imóveis “desapareceram” do mercado, quer de venda, quer de arrendamento de longa duração a favor do aluguer turístico de curto prazo (eis a função do AL), o mercado imobiliário ficou “distorcido”. A realidade é cruel. Em Lisboa o problema ainda pode ser “disfarçado” pela imensidão em que se tornaram os municípios vizinhos – ainda que tal seja considerado “gentrification”, não deixa de ser uma solução para moradia acessível para a maioria da população. Mas no Algarve não se trata disso. Simplesmente não existem praticamente habitações para quem queira vir de fora para trabalhar. Para se ter uma ideia clara do que afirmamos, o município de Albufeira tem hoje mais de 3.000 fogos licenciados para AL. Em Lagos serão mais de 2.300 fogos. Por todo o Algarve, a situação repete-se com maior ou menor dimensão. Se é verdade que, outrora, tal já ocorria, especialmente na época alta, hoje verificamos que estas habitações, moradias ou apartamentos estão consignadas em exclusivo a esta atividade. Recorde-se que a facilidade (simplex) de início de atividade, prevista na legislação em vigor, conjuntamente com a expetativa de participar nos rendimentos do atual “boom” turístico levam à ampliação desta atividade até níveis extremos. Acaba por se tornar uma moda, pode vir a ser mais uma gigantesca bolha, daquelas que acaba em desilusão.

Mas o que importa é a consequência imediata (e para o futuro próximo) desta realidade. Não há habitação para possíveis migrantes ou imigrantes que procurem trabalho. Ficarão postos de trabalho por preencher. Não só no turismo, mas sobretudo no turismo. Isso causa imenso “stress” para quem quer desenvolver e mesmo expandir a sua atividade, os seus negócios. As consequências ficarão bem visíveis não só na presente temporada (já parece Verão) mas nas próximas, caso o crescimento continue, ainda que não tão evidente. Seja como for, crescimento é crescimento. Ponto final. Os pressupostos que levam a este texto mantêm-se inalterados.

É um assunto que não está na imprensa “mainstream”, mas não demorará muito. Sobretudo, se se confirmarem rumores a que este blogue teve acesso e que são já de si extremamente negativos: é bem possível que duas novas unidades hoteleiras no Algarve, as quais deveriam abrir no Verão, não consigam abrir as suas portas ao público, como previsto. Uma abertura em pleno Verão já seria complexa, devido à falta de pessoal qualificado que se tornou estrutural. Dado que estamos a atravessar esta novíssima crise, a falta de pessoal torna-se gritante, incomportável. Não se podem abrir unidades de 4 ou 5 estrelas com “meia-receção”, “meio-restaurante” ou “meia-limpeza”. Em breve saberemos se estes rumores são mesmo verdade. Esperemos que não, mas, ao se confirmarem, vão acabar por colocar o dedo na ferida de um problema que não passa de um acidente à espera de acontecer. Este assunto ainda vai dar pano para mangas.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Crescer em segurança

Agora que o primeiro quadrimestre do ano está a chegar ao fim, começa a ficar claro que o ano turístico nacional poderá ser de crescimento maior do que o previsto. Não há dúvida que a grande “explosão de 2016” ocorreu com maior força a partir do 2º trimestre do ano, sendo que o crescimento se estendeu até ao último trimestre. O 1º trimestre de 2017 denota a continuação da tendência do ano anterior. Tudo leva a crer que haverá crescimento neste segundo trimestre, mesmo em comparação com o período homólogo do ano passado. A grande incógnita será o 3º trimestre (o tal que inclui o mês de Agosto) em comparação também com o período homólogo anterior. Não porque se registe qualquer quebra de reservas, antes pelo contrário, mas sobretudo porque poderão ser postas à prova realidades como o “pricing power” (aumento dos preços e gasto médio geral por turista), a capacidade de carga (como as cidades vão se adaptar ao aumento de unidades de alojamento, de similares de hotelaria, de serviços conexos e… de pessoas) ou mesmo a capacidade dos aeroportos nacionais em gerir o aumento dos voos e de passageiros em épocas de “peak season”. Sendo o terceiro trimestre (sempre com a sombra do mês de Agosto) fundamental para as contas finais de qualquer ano, melhor ou pior, teremos de esperar pelas estatísticas do dito trimestre para aferir sobre a capacidade de melhorar receitas e geração de lucros após impostos.

Como já foi dito neste vosso humilde espaço, é verdadeiramente positivo ter aumentos de turistas e, se possível, gasto médio por pessoa, na ordem de 8 – 12% ao ano no período de Novembro a Fevereiro. Ou, se quisermos ser mais otimistas, de Outubro a Maio. Isso já é uma grande vitória, ao atenuar efeitos sazonais perturbadores ao ponto de levarem ao encerramento sazonal de muitas unidades hoteleiras de diferentes categorias. Na verdade, após dois a três anos de forte crescimento nesses meses, já seria excelente a possibilidade de manutenção a esses níveis, se não for possível crescer mais.
A grande questão prende-se sempre com a realidade Junho – Setembro. Esses quatro meses são fundamentais para a estratégia comercial das unidades. Que não fiquem dúvidas, isto é válido não só para destinos de sol e praia, mas também para qualquer outro tipo de destino em Portugal e na maioria dos países europeus. Isto não é válido para destinos de montanha e neve, obviamente. A maioria dos cidadãos do hemisfério norte viajam entre Abril e Outubro, com destaque para trabalhadores no ativo, os quais têm, em média, maior poder de compra e propensão para consumir o “produto” turismo com todas as suas derivações. Por isso é que estamos ansiosos para ver o que se vai realmente passar nos próximos meses de Junho a Setembro, com destaque para Agosto. A capacidade de gerar maior volume de negócios nesses meses poderá dizer muito sobre aquilo que deverá ser a estratégia de curto prazo, leia-se, para os anos 2018-2020.

A propósito destes anos de crescimento global do turismo, com origem em meados de 2015, temos visto neste blogue como certos destinos de sucesso sofrem muito devido a fenómenos da esfera geopolítica, com destaque para a recorrência de incidentes de crime e terror. Não é, assim, motivo de admiração que a indústria hoteleira atualize constantemente os “rankings” de países e territórios considerados seguros para viagens e turismo.
Assim, vamos ver um pouco do “ranking” de segurança do “Travel and Tourism Competitiveness Report 2017”:

1. Finlândia
2. Emiratos Árabes Unidos
3. Islândia
4. Oman
5. Hong Kong
6. Singapura
7. Noruega
8. Suíça
9. Ruanda
10. Qatar
11. Portugal
12. Luxemburgo

Se está admirado com os resultados, não fique. A Finlândia é um sossego, tal como a Islândia e a Noruega. A Suécia já não aparece no topo, devido à perceção em relação aos refugiados do médio oriente. Os EAU, o Omã e o Qatar têm esquemas de segurança tais que nem os maiores fanáticos se atrevem a desenvolver ataques. Até ver. Hong Kong e Singapura são hoje locais muito seguros. O Ruanda é uma surpresa para muitos devido aos eventos da década de noventa do século passado. Recordamos aqui que este destino era uma das certezas para os próximos tempos num artigo deste blogue. O facto de ter vivido à época essa sangrenta guerra civil não significa mais nada hoje. É um exemplo para os países que vivem hoje tempos difíceis. As coisas podem sempre melhorar. Portugal está num honroso 11º lugar e, cremos, ainda vai subir mais nesta tabela. Eis mais uma das muitas razões que contribuem para o sucesso do nosso turismo. Esperemos que isto nunca mude. Por exemplo, a Alemanha não passa do 51º lugar nesta tabela. Como foi isso possível? A resposta já todos sabem…


Uma nota final para uma consequência prática daquele vergonhoso episódio a bordo do voo da United, onde o pobre passageiro foi arrastado como um criminoso, para dar lugar, devido a “overbooking”, imagine-se, a um membro da “cabin crew” da companhia. Como todo e qualquer pedido de desculpa, num caso desta natureza, é inútil para “limpar” a imagem da companhia aérea, toda e qualquer campanha publicitária é ineficaz, decidiu a UA fazer mega-descontos em voos dos EUA para a Europa. Só para dar um exemplo, dos EUA (vários aeroportos) a Paris pode ser tão barato como 390 euros, ida e volta. Dado que a concorrência não vai ficar parada, podemos ter aqui na Europa (meses de verão) um acréscimo de turistas norte-americanos. Curioso como uma péssima situação individual se pode transformar sem querer num benefício para outros.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Após a Páscoa 2017 – algumas reflexões necessárias

A semana de Páscoa revelou excelentes números (provisórios) de Turismo um pouco por toda a Europa. A Espanha e a Grécia terão igualado ou superado as expetativas. A surpresa foi a revelação que nos chegou de Londres: à beira do longo fim de semana Pascal, os destinos mais baratos (aqui falamos de viagens de última hora) à venda no Reino Unido eram, em primeiro lugar, uma região da Bulgária (nenhuma surpresa) e, em segundo lugar, o Algarve. Neste caso, não se trataria de “toda” a região, mas dos destinos de litoral mais “consumidos” pelos britânicos ávidos por sol e praia, ávidos por um verão antes do verdadeiro verão. Esta informação é válida para destinos relativamente próximos do Reino Unido, pelo que se exclui o Magrebe, o médio oriente em geral, incluindo a Turquia. Esta última vive ainda momentos políticos agitados, não sendo de admirar números oficiais que revelam já 15 meses consecutivos de queda da atividade turística. Já caiu muito mais, mas ainda continua a perder.

A Grécia está a recuperar fortemente como já se esperava pelo volume de reservas. A Espanha vive momentos de glória quer no continente quer nos arquipélagos. Está a crescer em número de visitantes, de dormidas e de receitas. Mais tarde veremos se o gasto médio por turista aumentou como pensamos que está a acontecer. Aliás, os operadores (sempre à procura de pechinchas) queixam-se dos preços em Espanha, afirmando que está mais caro um 3 estrelas em Espanha do que um 5 estrelas na Turquia. Parece até que já se esqueceram que isso não tem nada a ver com Espanha, mas sim com a Turquia. Simples assim.

Portugal vive bons momentos. A boa notícia para o país é que os destinos Lisboa, Porto não são os únicos a crescer. Há muita gente a descobrir outras partes do país, situação muito positiva se tiver continuidade. Acreditamos que o potencial está aí para esses destinos emergentes.

O Algarve é um caso diferente. Porque é que, de repente, se transforma num destino dos mais baratos (no sol e praia), quer em “early birds”, quer em “last minute bookings”?
Por um lado, é barato apenas no contexto da Europa Ocidental, mas não num contexto geograficamente mais abrangente. Não é de admirar que a larga maioria dos turistas que nos visitam tenham origem, então, nesse “mundo ocidental”, principalmente europeu. É um destino em conta, sendo que o € não alterou nada, pelo contrário, os preços tornaram-se mais transparentes para os nossos turistas.

Por outro lado, assiste-se a um aumento espantoso da oferta de alojamento. A esse propósito, vale a pena lembrar que é um erro continuar a falar em “camas paralelas” para descrever aquilo que não é classificado pela instituição Turismo de Portugal, aquilo que agora se chama Alojamento local (AL). Não há camas paralelas, há camas, ponto final. Pode haver camas ilegais não registadas sequer nas Câmaras Municipais. Cabe às autoridades punir essa situação. Mas todas as camas registadas com base na Lei em vigor, são camas turísticas, de uma forma ou de outra, da mais luxuosa até à mais modesta. Somando tudo, assiste-se a um aumento da oferta, sendo que tal vai levar a prazo a uma maior ocupação. Mas enquanto não se recuperar um certo equilíbrio entre procura e oferta, a consequência prática passa por preços mais baratos, desde logo nos alojamentos que chegam ao mercado (tanto faz se a plataforma é o Airbnb ou outra mais “clássica”), o que acaba por retirar pressão compradora sobre alojamentos classificados, os quais acabam por sucumbir à pressão do mercado. Os alojamentos classificados, aliás, sempre tiveram esse problema. Hoje é a concorrência interna, antes era a externa, o que levava a uma submissão às pressões dos TO para oferecerem melhores preços, de modo a garantir boas ocupações. Na prática, isso levou a um envelhecimento de muitas unidades sem que fosse possível a sua modernização. É a velha história da “pescadinha de rabo na boca”. Não foi possível gerar um EBIDTA suficiente para o investimento, adiaram-se melhorias e novos investimentos (obras, marketing, tecnologias, etc…), as estruturas perdem valor comercial, o que obriga a baixar preços porque a qualidade física e humana se degradou, o que impede novamente investimentos a não ser que entre capital “fresco”. Para que não se degrade a relação qualidade/preço, o que fazer quando a qualidade baixa? Sem possibilidade de investimentos, resta baixar o preço para não perder essa relação esperando agradar ao mercado. Ainda que não seja a clientela desejada, há sempre outra clientela para substituir a anterior. É o chamada nivelamento por baixo, do qual muitos não conseguiram fugir. Felizmente existem boas exceções ao que ficou dito. Quem nos dera que fossem a regra, mas ao menos vamos acreditar que haverá mais exceções.

Quando a larga maioria da oferta tende a ser “barata”, como é o caso (agora alavancado pelo AL) do Algarve, quando a maioria dos voos já era “barato”, o que acontece? Aumenta o volume de turistas, sem garantias de aumento da estadia média, sem grande propensão para aumentar o gasto médio. Ainda que aumente o gasto médio dos turistas que ocupam hotéis de três, quatro e cinco estrelas, a média geral da região dificilmente aumentará, devido ao mais baixo gasto médio dos turistas AL. Dado que muito desse AL (e não só…) é “self-catering”, os supermercados esfregam as mãos de contentes. Por isso mesmo, muitos comerciantes (similares de hotelaria) congratulam-se com o que se passou nesta Páscoa, estão contentes com as perspetivas de longo prazo, mas sentem uma certa frustração pelo facto de receitas e lucros ficarem um tanto ou quanto aquém do esperado. A razão para tal é exatamente esse nivelamento por baixo, como se o Algarve fosse uma espécie de substituto de destinos como a Turquia, algo que a Espanha já foi, mas hoje não consegue ser e nem deseja ser.


Esta é a nossa vida agora, o nosso país, a nossa região, temos de fazer o melhor para obter o máximo proveito. Para que se atinja um patamar mais elevado, é necessário que o Algarve tenha 20 a 30% mais de visitantes, dos quais alguns serão “low cost”, mas outros terão poder de compra para alavancar as contas dos empresários. Se a economia global ajudar, isso poderá ser atingido em algum momento da próxima década.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Voando sobre um ninho de cucos - extra

Logo após a publicação final do tópico, assistimos ao polémico "prós e contras" na RTP-1.
Normalmente não seguimos notícias da imprensa "mainstream", mas sendo um debate com tão importantes protagonistas, não podia deixar de merecer a máxima atenção, até porque é um bom exemplo de debate(s) civilizado, raro neste país.

Mais uma vez se provou que este blogue diz a verdade (basta reler os tópicos): o estudo de impacte ambiental vai ser um problema, a pista vai ser um problema, a segurança será também problemática. Ainda por cima, confirma-se que ninguém sabe qual o tempo de vida desta solução na base aérea do Montijo. Devido ao ruído, seguramente não será nada bom para voos noturnos. Ao mesmo tempo, não resolve o problema da falta de capacidade para "super jumbos".

Já a alternativa CTA (campo de tiro de Alcochete) seria melhor em vários aspetos, mas seria mais dispendiosa, até por causa das acessibilidades.
Perante o que foi discutido pelos participantes, está criado "o caldo" para aquilo que vai acontecer: o impacte ambiental bem como a segurança serão fatores para desaconselhar a solução Montijo, Alcochete não passa devido aos custos associados, fica só a atual Portela, aumentando-se o "taxi way" da pista (permite mais voos por hora). O aeroporto atual vai ter que servir até ficar estrangulado e ainda estrangular as possibilidades de aumento de turistas que queiram visitar a região e o país. Do ponto de vista da ANA é mau, mas não necessariamente um desastre.

E assim vamos vivendo num país que não tem estratégia, não tem dinheiro, que perdeu imenso tempo a decidir o muito longo prazo. Realmente, é caso para perguntar se há uma esquizofrenia coletiva ou se é interessante para muitos que seja assim...